
SÓ AS CRIANÇAS
Só as crianças conhecem
a violência assim, quando sobem
às figueiras e procuram nozes,
maçãs, os frutos todos prometidos
a uma vida que demora a percorrer
os canais inúmeros do vale. Só elas
sabem como será tarde sempre, como
haverá sempre um fruto que lhes
não será dado esmagar entre
os lábios impacientes. E então correm
na direcção do vento, rasgam
os calções a subir os muros
altos, povoam veredas com sua
loucura pressentida, e adormecem.
José Carlos Barros
(natural de Boticas e residente em Vila Real de Santo António, concelho de que é Vice-Presidente da Câmara Municipal,) venceu a edição deste ano do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, organizado pela Câmara Municipal de Setúbal.
O livro “ Os Sete Epígonos de Tebas foi escolhido entre 144 outras obras a concurso, por um júri composto por Joaquim Cardoso Dias, João Candeias e Ruy Ventura.
Além da Obra agora premiada, o Arquitecto Paisagista José Carlos Barros é autor dos seguintes livros de poesia: Pequenas Depressões (em colaboração com Otília Monteiro Fernandes – 1984); Uma Abstracção Inútil (1991); Todos os Náufragos (1994); Teoria do Esquecimento (1995); As Leis do Povoamento (1996) e Las Moradas Inutiles (edição bilingue Português / Castelhano (2007). Tem vários poemas publicados em antologias; entre elas, referimos ANTOLOGIA DE POESIA PORTUGUESA ACTUAL, na qual colaborou outro escritor flaviense e crítico literário, bem conhecido dos Portugueses, Francisco José Viegas.
Além de ser um poeta distinto, é um grande humanista. Nesta qualidade, apoiou o Senhor Presidente da Câmara, Eng.º Luís Filipe Gomes, a tomar a decisão de mandar tratar em Cuba, os munícipes que tinham problemas de visão. Podemos afirmar que o Município de Vila Real de Santo António operou uma revolução no campo da saúde em Portugal.
O saudoso poeta António Cabral, autor da letra da Marcha de Boticas, disse-me um dia, e há dezenas de anos, - Vós tendes lá um rapaz com grande talento para a poesia; chama-se José Carlos Barros. Já lhe atribuímos um prémio, entre muitos concorrentes.
Do livro “ TODOS OS NÁUFRAGOS”, transcrevemos o poema «SÓ AS CRIANÇAS» referido na página 193 da História do Ensino e da Cultura do Concelho de Boticas (em CD).
-António Cabral, um dos maiores poetas transmontanos de sempre, não se tinha enganado. Este Prémio e a Obra já publicada, confirmam, do tal jovem, a argúcia e a cultura que, nele, cedo, reconheceu.
Artur Monteiro do Couto