
BODAS (CASAMENTOS) À MODA ANTIGA no Barroso
Leia porque vai gostar de saber os rituais entre os noivos, os pais, convidados, as declarações em cantigas populares, etc., que foram recolhidas pelo capelão dos bruxos, Dr. António Lourenço Fontes, Barroso da Fonte e Alberto Machado, em Comunitarismo do Barroso editadas em 16 de Dezembro de 1977.
Vamos começar:
«A noiva está em sua casa acompanhada de moças amigas e de seus pais. Ajudam a prepará-la e confortam-na, animando-a a sair de casa para receber o esposado (noivo). Os cantadores, chefes de protocolo, mandam sair a noiva ao patamar das escadas, ao bater na porta o padrinho, por 3(três) vezes. Este pede gente, honra e fazenda (dote). Só depois de várias cantigas, quadras populares líricas e saudosistas dos cantadores é que a noiva sai a porta.
Com as lágrimas nos olhos, ao sair de casa e descer as escaleiras abraça o pai e a mãe a quem pede a bênção pela última vez solteira.
A saída de casa é uma festa importante, uma vitória da comunidade. Festeja-se com vinho que a comitiva da noiva traz lá de dentro. Os não convidados ou que não puderam ir, deixam tudo para assistir a este espectáculo de pedir a noiva. Também se diz buscar a noiva, tirar a noiva.
Os cantadores, depois de fazerem botar a lágrima aos pais em público, com as suas quadras (comovendo-os), ao som da sanfona ou concertina, animam os mesmos a esta façanha de entregar a esposada ao esposado dizendo-lhes que será bem estimada, etc.. É uma passagem dramática que toda a gente gosta de sentir e ver de perto, em que os cantadores mais se aprumam e inspiram. Os convidados e demais espectadores fazem lembrar o coro das tragédias gregas sofocleanas. Os cantadores são como jograis ou bobos da festa. Ora divertem jocosamente os convidados ou doutrinam no sagrado, a criação do mundo, do primeiro homem e primeira mulher, etc.. O coro feminino acompanhante da noiva aqui, actua também a favor da comunidade, encorajando a noiva a sair.
Na igreja, o noivo e o padrinho vão perguntar à noiva: é de sua vontade vir comigo? Ela responde: Sim.
Então a madrinha tira-lhe a capa de burel ou Saragoça e lenço preto e coloca-lhe um lenço amarelo na cabeça, que a noiva terá de usar, ainda que esteja de luto.
Os casamentos, aqui, eram de preto. Os trajos são escuros. A noiva não ia de branco, mas de trajo normal ou festivo se o tinha. À saída da Igreja, festeja-se o acto com bombas, tiros de morteiro, de bacamarte.
Foi uma vitória para a comunidade e sua eternização social. Dão-se amêndoas pelas portas. Isto é coisa da esposada (acabada de casar), madrinha e mulheres convidadas. Os homens dão cigarros e bebem vinho à porta de todos os amigos.
Segue-se o jantar da boda. Este foi oferecido pelos convidados. Os homens ofereceram às cozinheiras a vitela ou vitelas necessárias, ou se o número de convidados for reduzido, oferecem borregos, cabritos, cabras e ovelhas. Diz o povo: quem vai à boda leva que coma. Há casamentos que depois de matarem os richelos precisos ainda ficam com um pequeno rebanho para começarem a sua vida económica. Esta solidarização e comensalidade são duas constantes na vida comunitária de Barroso.
Se a filha vai viver para casa dos pais, os cantadores vão entregá-la, depois da distribuição dos ramos ou doces oferecidos pelas mulheres. Vão à porta dos pais e ali mandam abraçar a filha casada e o genro, futuro filho que pede a bênção aos sogros a quem passa a chamar pais.
O mesmo se faz se a noiva vai viver para casa do esposado (marido).
Alguns, mais pobres, ficam a viver na casa dos seus.»
Edição do autor em 16 de Dezembro de 1977.
No século XXI, tudo isto parece uma ficção de telenovelas; mas foi uma realidade secular.
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Artur Monteiro do Couto