
Na festa do Natal Cristão tudo
se desenrola à volta do nascimento de um menino.
«Nascido Jesus em Belém da Judeia, (lugar situado a 9 Km ao sul de Jerusalém, actualmente, onde a paz não se vislumbra), no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém os magos (sábios persas que se dedicavam ao estudo dos astros ou talvez sábios, chefes de aldeia ou de tribo) que perguntaram:
«Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? Pois vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo».
- Começou logo nesta fase, enquanto o menino dormia tranquilamente, a habitual luta pelo poder.
Uns, segundo os ensinamentos bíblicos, admitiam que acabava de nascer o futuro rei dos judeus; outros que, além de um menino vulgar como os outros meninos, era filho de Deus, Senhor do universo; ainda muitos outros, como vamos transcrever de um poema de Miguel Torga, nem sequer, em pensamento, poderiam admitir que alguém pudesse vir a ser superior a eles. Citamos o poema:
«Era uma vez, lá na Judeia, um rei,
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia,
Porque um dia
O malvado
Só por não ter poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.
Mas
Por acaso ou por milagre, aconteceu
Que, num burrinho, pela areia fora,
Fugiu daquelas mãos de sangue um pequenino.
Que o vivo sol da vida acarinhou
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Coimbra, 12 de Outubro de 1937
Miguel Torga (Diário-Poesias)
E, nos nossos dias, é à volta da história do menino a que se refere o Poeta que, na minha aldeia, as Famílias se reúnem, plenas de alegria, a recordarem os tempos em que viveram felizes no seu lar de nascimento, à volta da lareira e da mesa, para intensificarem o calor humano que sempre os uniu, embora os corpos estejam, agora, separados por longas distâncias.
À Ceia, come-se o tradicional bacalhau, o polvo, as batatas, as couves, a aletria, as rabanadas e outras iguarias, que vão sendo introduzidas na ementa para harmonizar o paladar das crianças com o dos adultos. O manjar mais saboroso é o sorriso e o repetir das saudades de outros tempos em que estavam presentes outros familiares.
Enquanto não chega a meia-noite, as crianças vão-se entretendo com o jogo do rapa, vindo do tempo dos avós, e outros que já marcam encontro com o telemóvel, as novas tecnologias e a magia que foi crescendo durante a infância, associada às aventuras e presentes que o Pai Natal lhes virá pôr no sapatinho. Vive-se uma Noite de Paz, de Amor e de Alegria.
- No dia seguinte, as crianças prolongam a magia na Igreja, junto do presépio aonde vão admirar as figuras artesanais que representam o nascimento do Menino, o burro, as ovelhas, os magos e os pastores com ovelhas dos seus rebanhos que vão oferecer como presentes.
Termino com palavras de uma das melhores actrizes da actualidade em Portugal, Fernanda Serrano, uma das vedetas das telenovelas da TVI: «O Santiago (filho mais velho) ainda acredita no Pai Natal, escreve carta e tudo. Vou ver se consigo prolongar esta magia por mais dois ou três anos …porque tem muita graça.» Correio da Manhã de 26-11-2009.
Gostaríamos que todos os Pais, sem complexos de infantilidade mental, cultivassem a magia do Natal nas crianças em vez de se contentarem a materializá-las com brinquedos de guerra e outros com significado socialmente discutível.
Desejamos Boas Festas a todo o género humano.
Artur Monteiro do Couto