belezas paisagisticas e artisticas de Trás-os-Montes
Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011
O CICLO DO PORCO EM TERRAS TRANSMONTANAS

  

      BELAS ALHEIRAS E SALPICÕES DO LOMBO DO PORCO, AO FUMEIRO

 

   

                                     O CICLO DO PORCO

   

           NOS livros escolares já leu, compreendeu e fixou as voltas que o pão deu até chegar à sua (nossa) boca, como parte da nossa alimentação: eis o ciclo do pão.

 

           Hoje e aqui, vai acompanhar o ciclo do porco.

 

           Vamos começar:

 - No pátio da casa rural transmontana, um grupo de machos e de fêmeas porcinas saboreavam as hortaliças que lhes tinham destinado para a merenda. Um borrão (porco macho), começou a sentir-se com um aquecimento estranho e o instinto motivou-o a saltar para o lombo da porca que já muitas vezes lhe tinha suscitado paixão procriadora e abraçando-a com as patas dianteiras no pescoço colocou-lhe o abençoado espérmen, no seu seio, que havia de gerar 12 bácoros branquinhos, lindos, lindos, que seriam o encanto das crianças. Os patrões deliraram pela qualidade e quantidade, uma boa esperança de aumentarem os seus proventos.

 - E os pequeninos porquinhos, agarrados às tetas da mãe para iniciarem a saborosa alimentação, cresciam a olhos vistos. Pouco tempo depois, já comiam batatas cozidas, bem amassadas, farelos de centeio na sopa, pedaços de abóbora e outros sabores que a natureza e os zelosos patrões lhe seleccionavam para comerem e gritarem por mais.

   Passados meses, já tinham direito a alimentar-se como os mais velhos: milho, centeio, botelhos, batatas cozidas e cruas, maçãs, etc.. Havia e há mais abundância na pia dos porcos da aldeia do que numa grande parte das mesas actuais de alguns cidadãos.

   Passados cerca de 10 a 12 meses, já adulto, para as exigências da espécie, começam os maus pensamentos dos patrões  a prepará-lo para uma nova fase: “ a cerimónia da matança”.

Dão-lhe alimentação redobrada até atingir entre 100 e 150 quilos. Com este peso, o porcalhão já mal se mexe…«Por isso é que se diz que “aquele homem está gordo como um porco” quando, com a barriga grande e as calças nas pernas agitadas ao vento, fazem lembrar as bandeiras  na torre da igreja, em dia ventoso de festa.

Assim, com bons presuntos, lombo grosso para dar uns bons salpicões e senhor de abunbante carne menos valiosa para fazerem alheiras, chouriças de carne, farinheiras e chouriços especiais, envolvidos nas tripas dos intestinos grossos, está atingido o objectivo.

       E o amaldiçoado dia para o imponente animal chegou por altura do último mês do ano. A comunicação de boca a boca, de porta em porta, pelo telefone ou SMS (nos nossos dias), anuncia aos familiares e amigos o dia e a hora da festa da matança dos porcos lá de casa. E como festa é festa, e todos os normais gostam de festas, agradecem o convite e aceitam a participação no adocicado assassinato do animal-rei das iguarias regionais e nacionais. Vejam só o Restaurante Solar dos Presuntos, em Lisboa, a poucos metros do Coliseu de Lisboa.

      O Alfredo, de faca bem afiada e bem cortante, inflige um único golpe no pescoço do “Bonito” e este grita com tal estridência que se faz ouvir por toda a povoação a lamentar a sua sorte e a despedir-se dos colegas. O sofrimento foi rápido, quase como se nos tivesse dado um enfarte mortal do coração a nós.

  

       

            LIMPEZA CUIDADA E TOTAL                       Fotografia de Rcmonteiro

 

 

                    Vivido este momento triste, que fez tapar os ouvidos a uns e voltado a cara a outros, a boa disposição voltou e, agora, com toda a gente preparada para a operação limpeza. Alguns, até pareciam barbeiros a fazerem a barba aos seus clientes. Limpeza feita, começa a autópsia ao interior do bicho. Parecia o interior de um humano. O Povo diz: « se queres ver o interior do teu corpo, vê o do porco»… e lá estava o coração, o fígado, todo o aparelho digestivo e os componentes restantes que mantiveram uma vida sempre saudável, com peças de origem.

      Tudo preparado segundo as regras de bem-matar, lavar, desventrar e seleccionar, concluiu-se que até os ossos e as vértebras podiam ser chupadas, depois de cozidas.

 

                   AGORA PÕE-SE A QUESTÃO:

 

            Será que terminou o ciclo do porco ou vai entrar-se numa segunda fase?

            Vamos entrar na segunda fase, concretamente, a festiva.

            Na sala de jantar, geralmente, numa grande cozinha que serve para festas e tristezas, reúnem-se os convidados para uma grande jantarada, associando as batatas, nabos, couves, cenouras, arroz e os órgãos mais saborosos saídos do interior do rei-porco, com partes carnívoras de outras espécies animalescas ou de aves caseiras.

           O vinho é do maduro de Valpaços ou de Vidago, tinto. Minutos depois, já toda a gente canta, conta histórias ou se ri com as gargalhadas sugeridas pelos cantores ao desafio, acompanhados pelos sons das concertinas.

            Uma semana depois, entra-se na fase da confecção do fumeiro e preparação, especificamente, do que tem de se vender ou ficar para o consumo caseiro.

 

      

   A comercialização começa nas “feiras de fumeiro”, regionais. Sobretudo, em Boticas, Montalegre, Chaves e Vinhais.

           Convidamo-Vos a fazer-lhes uma visita; já neste mês. Em Boticas, nos dias 14, 15 e 16; em Montalegre, dias 27 a 30.

                            Artur Monteiro do Couto

 

        



publicado por belezaserrana às 18:04
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2 comentários:
De rioterva a 6 de Janeiro de 2011 às 00:45
Dr. Artur Couto:

Os meus parabéns pelo seu trabalho sobre a descrição pormenorizada do ciclo do porco na Região ao Alto Tãmega e Barroso.


De Anónimo a 14 de Janeiro de 2011 às 23:23
Já tive uma lareira recheada como esta...quem me dera cá esse tempo...quem me dera cá, esse lugar que tanta saudade me deixa...
Parabens para esta preciosidade, estas relíquias, ao anfitrião!
Saúde...


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