A EMIGRAÇÂO OPEROU UMA REVOLUÇÃO
A região do Barroso, (formada pelos concelhos de Boticas e Montalegre), sempre foi uma das mais pobres e incultas de Portugal. Isolada no interior norte de Portugal, de braço dado com a Galiza, (Espanha), caminhou ao longo da História com o esquecimento do poder centralizado em Lisboa. Os seus filhos mais corajosos reagiram contra esta situação. Não encontrando remédio dentro das fronteiras, foram buscá-lo noutras partes do Globo; por terra e por mar; a pé ou a cavalo e mais tarde, já nos meados do século XX, de barco, carro ou de avião. A Família não podia viver com uma qualidade de vida semelhante à dos animais que, pelo menos, tinham erva nos campos/lameiros para comer. E ei-los a partir pelo Mundo de Cristo confiantes no êxito. Sofreram no corpo e na alma os efeitos da aventura, mas foram esses, que se fixaram na Europa, sobretudo em França, no Brasil, nos Estados Unidos da América e noutras paragens, que fizeram a revolução cultural no Barroso e evitaram que os seus filhos não conhecessem a dureza da vida que os empurrou, a eles, porta fora.
Efectivamente, Barroso, a partir da emigração da década de 1960 em diante, mudou substancialmente nas formas do “ TER “ e do “ SER “.
Recordamos que só depois da Reforma do Ensino do Ministro Veiga Simão (1967-1974) é que o Ensino Oficial Preparatório trepou até às montanhas do Barroso. O ensino gratuito até ao 6º ano só chegou a Boticas pela Portaria nº 664/73 de 4 de Outubro, que criou a Escola Preparatória D. Pedro de Meneses. As Escolas, da maior parte de mais abastados e menos abastados, foram os Seminários destinados a formarem padres. Uns alunos pagavam pouco e outros não pagavam nada; e daqui partiu a grande revolução cultural que os emigrantes provocaram nas regiões mais carenciadas. Reconstruídas as casas, começaram a investir na educação dos filhos, mandando-os estudar em Chaves, Braga, nos Seminários, nos colégios particulares locais, nas Universidades e só muito mais tarde é que aparece a democratização do ensino; mas esta democratização do ensino não custeava as despesas da alimentação, deslocações para a sede dos concelhos, o material escolar, etc.. E foi aqui que o suor e o sangue dos emigrantes apareceu transformado em escudos para que os seus filhos ou netos não fizessem parte da lista a quem estava vedada a possibilidade de irem além da quarta classe, criada pelo Governo de Salazar.
Hoje, temos gente importante no aparelho de Estado; administradores de grandes empresas, do Estado e Privadas, Industriais e grandes Empresários de sucesso, dentro e fora de Portugal, mas que isto fique bem claro: se não fossem os emigrantes, ainda hoje se andava a fazer as necessidades nas cortes dos porcos, das vacas e nas hortas e os incultos continuariam em números alarmantes. Diz o Povo « Quem não tem dinheiro não tem vício…ou “ não toca viola”. E o dinheiro veio com a emigração. Antes, vegetava-se e andavam os curiosos a arrancar dentes com alicates de arrancar pregos e outras coisas similares. Por tudo isto, aqui fica uma saudação especial aos emigrantes que estão de visita aos familiares, desejando-lhes umas boas férias; aos emigrantes de todos os Continentes e, aos agora, “Cidadãos Europeus”.
Artur Monteiro do Couto
Nota. Cá pelo rectângulo lusitano, à beira-mar plantado, «a crise já levou muitas famílias a terem de entregar as chaves das suas casas aos bancos por não conseguirem pagar os empréstimos de crédito à habitação» Jornal SOL-12-Julho-2008. Por este andar, agora, vão ser residentes das grandes cidades a terem de partir, infelizmente, como fizeram os barrosões.